A crueldade por trás dos testes em animais


Ilustração: Andrew Tisley/ Piauí (reprodução)

*Alerta de conteúdo sensível: esse texto pode conter menções a assuntos específicos e desencadear sensações/sentimentos ruins*


Todos os dias a indústria cresce a partir da criação de novos produtos, equipamentos, cosméticos, roupas, sapatos e tudo o que o ser humano precisar, e até o que não é necessário... O setor da beleza é um dos que mais se fortalece, justamente porque um dos pontos mais característicos do capitalismo é reforçar as ferramentas de opressão, gerar novos produtos para “consertar” os problemas que ele mesmo criou e assim girar a roda da economia, tendo como foco principal as mulheres: o primeiro passo é deixá-las inseguras sobre seus corpos, idealizando padrões inalcançáveis de perfeição para depois vender a solução para tudo isso. Afinal, como você pode viver tranquilamente sem usar um hidratante clareador a base de caviar para evitar manchas escuras nas axilas? Impossível, né...


Tudo aquilo que é consumido por seres humanos é testado em animais antes de ser comercializado. Remédios, cosméticos, e até o cigarro que você fuma, tudo passa por um teste antes de chegar às prateleiras. Para isso, são utilizados diferentes métodos dolorosos que vão desde impossibilitar o animal de piscar, até enfiar tubos em seus corpos e injetar fumaça diretamente em seus pulmões. Mas o que de fato importa é o seu produto favorito estar sempre ali, né?


Cachorros, hamsters, coelhos, macacos, ratos e por aí vai, cada espécie é utilizada para um teste específico. Os cachorros da raça Beagle, por exemplo, são escolhidos por serem dóceis e calmos e aceitarem mais facilmente os testes feitos. Já os ratos, são mais usados por serem pequenos e se adaptarem mais rapidamente a diferentes ambientes, terem um custo mais baixo se comprados em grandes quantidades e por serem geneticamente parecidos com os seres humanos, o que deixa os testes ainda mais precisos.


Grupos de proteção animal no mundo inteiro lutam pelo fim dessa prática extremamente cruel e que viola todos os direitos desses seres. No Brasil, em 2013, um grupo de ativistas invadiu o laboratório do Instituto Royal, onde eram realizados testes em Beagles após denúncia de que os animais seriam sacrificados. Ao todo, mais de 200 bichos viviam como cobaias em condições extremas. Os ativistas afirmaram ouvir gritos dos animais do lado de fora do laboratório. Ainda em 2013, a indústria de cosméticos aboliu os testes em cobaias vivas na União Europeia e também em Israel. No Brasil, essa prática é regulamentada pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal – CONCEA, responsável pela elaboração de normas que garantem a utilização de forma humanitária dos animais em experimentos, a pesquisa é amparada pela Lei 11.794 de 8 de outubro de 2008.





Tipos de teste


1. Indústria do tabaco: todos os dias os animais escolhidos como cobaias são submetidos a horas de exposição à fumaça do cigarro, respirando componentes químicos tóxicos. Os ratos utilizados são colocados em cabines ou cápsulas que restrinjam seus movimentos, facilitando assim a inalação compulsória. Já em macacos e cachorros, normalmente são usadas máscaras em seus rostos e também o método da traqueostomia (orifício feito cirurgicamente na região do pescoço que dá acesso a traqueia) em que a fumaça é lançada diretamente nas vias respiratórias do animal. Geralmente, quando o tempo de experimento chega ao fim, os animais que serviram de cobaia e sobreviveram são mortos e seus corpos são dissecados para estudar os efeitos da fumaça no organismo.



Exemplo dos métodos utilizados em testes com animais na indústria do tabaco.


"Ironicamente, as experiências em animais enganaram o público durante anos porque as ratazanas, os ratos, os cães e outros animais não desenvolvem cancro do pulmão como os humanos. As doenças relacionadas com o tabagismo vêm de estudos epidemiológicos e clínicos em seres humanos e não em animais." - Scott Crouse


2. Indústria automobilística: além dos tradicionais testes com cobaias para medir os efeitos da inalação de dióxido de nitrogênio no organismo humano, devido às emissões dos carros movidos a diesel, a indústria automobilística também utiliza cães e porcos vivos sob efeito de anestesia para realizar testes de colisão, conhecidos como 'Crash-test'. Esse método tem o objetivo de verificar o funcionamento dos cintos de segurança e dos airbags, mas durante a avaliação é comum que os animais morram devido aos fortes impactos que ocasionam lesões internas e externas gravíssimas.


Crash-test realizado na indústria automobilística chinesa no ano de 2019.

Ainda incluindo os bichos na 'corrida capitalista', podemos citar outros itens que possuem componentes de origem animal em sua produção, entre eles os pneus. Ué, mas até os pneus possuem ligação com os animais? Sim, até eles... Para garantir o formato e a elasticidade do pneu quando em contato com o solo, utiliza-se o ácido esteárico na matéria emborrachada, esse elemento é obtido a partir da quebra de moléculas do sebo bovino. Outro item que podemos incluir nessa lista é o biocombustível, além da soja, do milho e da cana-de-açúcar, a gordura de origem animal vem sendo usada nos últimos anos como matéria-prima na produção desses novos combustíveis.




Outros produtos que possuem componentes de origem animal e talvez você não saiba:


Gelatina

Para que o docinho colorido e delicioso que você conhece fique com essa aparência, é necessário que sua base seja feita a partir de ossos, cartilagens e ligamentos de porcos e bois. Provavelmente você já ouviu falar que a gelatina é rica em colágeno, uma proteína essencial para o fortalecimento e elasticidade da pele, unhas e cabelos, o que ninguém diz é que o nosso próprio corpo produz o colágeno, ou seja, não é necessário que corpos sejam triturados para que a sua pele tenha um aspecto jovem.


Cola de instrumentos musicais feitos de madeira

A cola de madeira, ou cola animal, é muito utilizada na fabricação de instrumentos musicais como violinos, pianos, violões e outros itens feitos de madeira. A cola é produzida a partir do cozimento de pele e ossos de animais como bois, coelhos e até carneiros. Por ser amplamente utilizada, é possível encontrar o produto com muita facilidade no mercado.


Amaciante

Quem não gosta de uma roupinha limpa e macia, né? Para isso, algumas empresas utilizam na composição do amaciante um derivado de gordura animal, esse ingrediente é o responsável pelo toque aveludado ao qual estamos acostumados quando pegamos uma roupa recém lavada.


Alimentos vermelhos

Os alimentos coloridos são mais atrativos, nos fazem comer primeiro com os olhos antes mesmo de sentir o gosto, mas o vermelho sangue custa bem mais caro do que imaginamos... Doces, balas, sucos, iogurtes e até alguns cosméticos, aquela sua goma de mascar favorita e a cobertura de morango do seu sorvete, sabe o que todos esses produtos possuem em comum? O corante E120, também chamado de 'Corante natural carmim de Cochonilha'. A Cochonilha é um inseto e pode ser facilmente encontrado em plantas, para se manter seguro de predadores produz uma substância chamada 'ácido carmínico' e, é justamente esse material que é utilizado na produção desses alimentos. Pela coloração avermelhada, o Carmim também pode ser identificado em blushes, batons, sombras e muito mais.


Sacolas plásticas

Bom, que as sacolas fazem um mal danado ao meio ambiente você já sabia, né, mas e se nós dissermos que ela também possui componentes de origem animal? Para diminuir o atrito e garantir a maleabilidade do produto final, utiliza-se na fabricação dessas sacolas um agente de deslizamento a base de gordura animal. Desastre em dose dupla!


Açúcar refinado

É isso mesmo, até no no açúcar é possível encontrar ingredientes de origem animal. Apesar de ter sua base 100% vegetal, ao passar por todo o processo de refinamento o açúcar leva as cinzas de ossos de animais durante a produção. O açúcar mascavo também não é tão inocente quanto parece... apesar de levar melaço (subproduto da cana-de-açúcar) em sua mistura, os cristais também passam pelo processo de refino.


Fogos de artifício

Nem precisamos falar que somos contra os fogos de artifício, né? Além de barulhentos e extremamente desconfortáveis para os animais, podendo causar inclusive a morte, os fogos levam em sua composição, assim como os pneus, o famoso ácido esteárico, responsável por evitar a oxidação dos componentes metálicos e garantir a durabilidade do produto.


Creme dental

Composto por glicerina e outros ingredientes, o creme dental que costumamos utilizar diariamente também é uma incógnita e pode enganar o consumidor. A pegadinha está na glicerina que pode ter duas origens, animal e vegetal, mas a maior parte das empresas costuma omitir essa particularidade para não perder clientes, isso porque a glicerina derivada de animais é na verdade produzida a partir do sebo de boi. Já pensou estar todo esse tempo escovando os dentes com gordura? Pois é...




Se esses hábitos são danosos ao homem, já pensou como ele afeta os animais que são seres infinitamente mais sensíveis do que nós? Anos de crueldade e feridas que jamais poderão ser curadas. O encarceramento desses animais causa traumas psicológicos profundos que podem inclusive levá-los à morte. Hoje, já existem inúmeras alternativas que substituem os testes realizados em cobaias e alguns até mais baratos em relação à criação de animais, sendo assim por que ainda os utilizamos dessa forma? É importante repensar o nosso consumo de forma consciente e mais do que isso, utilizar essa inquietação para transformar outras vidas. Comece trocando aos poucos os seus produtos convencionais por outros que não foram testados em animais, diminua o seu consumo de carne, compre de pequenos empreendedores. Faça devagar, mas faça! E lembre-se: o seu produto pode esperar, a vida dos animais não!



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