A falsa crença do animal independente: histórias inventadas para encobrir maus-tratos

Atualizado: 9 de Mai de 2020


Foto: Estadão (reprodução)

Algumas espécies são, por natureza, de vivência solitária, em outras palavras: não costumam estar em grandes grupos. Entre eles podemos listar: preguiças, ursos, coalas, entre outros. A característica de isolamento e independência pode ser notada em animais selvagens, predominando em espécies que são instintivamente caçadoras, como os leopardos. Isso acontece porque animais que caçam precisam de concentração e agilidade para dar o bote em sua presa e, com outros companheiros ao redor, essa tarefa pode ser um tanto quanto árdua.


Essa característica não é comum aos animais domésticos, principalmente pela diferença de hábitat e também por conta de sua alimentação. Os cachorros, por exemplo, são mamíferos carnívoros pertencentes à família dos canídeos, que ao longo dos anos a partir do processo de evolução e adaptação ambiental, ganharam muitas características diferentes das suas de origem, entre elas o hábito de caçar. Por estarem habituados ao convívio e a uma alimentação regular, animais domésticos não precisam caçar para se alimentar. Ainda assim, são indivíduos com habilidades sensoriais muito aguçadas e reagem constantemente a estímulos externos. Isso significa que eles deixarão de caçar? Não! Mas por não precisarem mais fazer isso para sobreviver, esse costume passou a ser mais raro, às vezes até recreativo.


“Isso significa então que os animais da rua se alimentam caçando, né?”


Não! Os animais de rua não se alimentam caçando, mas sim procurando comida nas lixeiras, no chão, alguns são alimentados por pessoas que se solidarizam e assim vão passando os dias... “Mas gatos são independentes, sabem se virar sozinhos”. Se você é uma das pessoas que repete essa frase ou acredita mesmo nisso, sua carteirinha de ‘amante dos animais’ está vencida. Gatos não são animais independentes, cachorros não são animais independentes, animais domésticos não são independentes!


Sabe quando passa aquela reportagem super emocionante na televisão sobre venda de animais, policiais fardados carregando gaiolas com pássaros exauridos e doentes, araras depenadas, onças machucadas e filhotinhos de macacos amontoados em caixas pequenas? Pois é, a maioria desses animais nunca mais voltará à natureza. Sabe por que? Porque eles já desaprenderam a caçar, procurar alimento, estão fragilizados e traumatizados e não sobreviverão mais em seu hábitat natural, seus destinos serão os zoológicos, santuários e ambientes artificialmente preparados para recebê-los. Animais nativos sendo criados como animais domésticos. Imagine só, uma arara criada durante anos em cativeiro, tendo sua alimentação ali dada em uma bandejinha, todas as frutas, a água, cuidados veterinários e etc., já pensou no que vai acontecer caso ela seja solta na natureza? Viveria apenas alguns meses... quem sabe até menos. O mesmo acontece com os animais domésticos nas ruas.


Gatos e cachorros que vivem sob tutela têm uma expectativa de vida de 10 a 15 anos, já nas ruas essa expectativa diminui consideravelmente para 8 a 9 anos, mas na realidade a maioria não chega nem a 2. Tirando zoonoses que podem causar a morte desses seres, acidentes, risco de violência, fome e frio são apenas uma parcela dos inúmeros perigos aos quais os animais estão sujeitos. O mito do animal independente é uma falácia inventada para encobrir maus-tratos e abandono: “Vou deixar essa caixa de filhotes aqui, alguém vai pegar”. Realmente, alguns dão sorte em serem adotados ou encontram lar temporário, nem sempre é assim... filhotes são infinitamente mais suscetíveis a doenças e morrem mais rápido.


Animais domésticos nas ruas causam e sofrem acidentes terríveis, justamente por não estarem habituados ao movimento do trânsito e ao barulho excessivo. Os gatos são os que mais padecem. Sabe quando você vê um bichano "se jogando" na frente de um veículo e pensa: "Nossa, mas esse animal só pode estar querendo morrer mesmo!". Então, gatos tem uma visão 8x melhor que a nossa e por isso são mais sensíveis à luminosidade, sendo assim, o farol dos carros e motos acabam causando uma confusão para esse animal que, assustado, tenta fugir... mas nem sempre dá certo. Por isso batemos sempre na tecla de que lugar de animal não é na rua!