A necessidade de saber parar: a linha tênue do acumulador

Atualizado: 9 de Mai de 2020


Ilustração: Elisa Ferro

Todo protetor ou voluntário da causa animal começa seus resgates devagar. 1, 2, 3 animais. “Ok, agora não vou mais pegar nenhum, não posso mais”. A parte mais difícil é ter que dizer não. “Não tenho como deixar esses filhotes na rua”, “Não pude ver e não fazer nada”. Não. A maior parte das pessoas acha que a tarefa mais difícil é o resgate, mas não funciona assim: para poder tirar um focinho da rua, antes de mais nada, é necessário que ele tenha para onde ir, um lar temporário ou alguém que se responsabilize em adotá-lo, afinal é impossível ter controle sobre um animal na rua, medicar menos ainda.


Após o resgate e a consulta, esse bichinho vai precisar de cuidados e atenção redobrada durante o tratamento. E finalmente, após sua recuperação, vai poder ir para adoção e encontrar uma nova família... mas isso leva tempo e nem sempre eles são adotados de cara. “Vi esse outro bichinho na rua, não tive como deixá-lo” e assim o ciclo se repete. 20, 21, 22 e a contagem não para de aumentar. Além dos resgates desenfreados, às vezes para um protetor que passa muito tempo ao lado de um animalzinho é muito difícil se despedir e deixar que ele siga para um novo lar, e aí está a diferença entre um protetor e um acumulador.


A síndrome do acumulador de animais, mais conhecida como Síndrome de Noé, é uma variação da síndrome de Diógenes, em que o indivíduo perde o controle do número de animais domésticos que abriga, acumula mais do que é capaz de assistir e prejudica a sua qualidade de vida e a dos outros seres que vivem no lugar, infelizmente, os gatos são os mais afetados. Um acumulador geralmente não é sociável com outros seres humanos, mas demonstra carinho pelos animais com os quais convive, sendo assim, busca cada vez mais se cercar por eles.


O que começa com um hábito, torna-se uma prática extremamente prejudicial e insalubre, já que as pessoas acometidas por essa síndrome não só acumulam animais como absolutamente qualquer coisa, desde objetos até lixo, devido ao comprometimento de sua habilidade em desapegar. No Brasil, vários casos de acumuladores já foram registrados, em grande parte pessoas acima dos 40 anos. Não se sabe ao certo os fatores que podem desencadear, mas alguns sintomas como: espaços extremamente desorganizados e sujos, dificuldade em interagir socialmente e apego em excesso à posses e bens materiais, podem demonstrar que alguma coisa não está bem.


Alguns sintomas da depressão podem ser confundidos com a síndrome de Diógenes, por isso é importante estar atento aos sinais. É muito comum a pessoa afetada apresentar comportamento agressivo quando tem sua conduta questionada, muitas vezes podendo até machucar fisicamente quem se dispõe a ajudar, em casos como esse é necessário suporte ampliado de serviços de saúde para realizar o acompanhamento e também a remoção adequada desses animais. É válido ressaltar que, as consequências desse hábito impactam diretamente na saúde pública, tendo em vista os inúmeros problemas ocasionados, como a proliferação de pragas que afetam a todos.


Por isso sempre insistimos quando nos pedem incessantemente para resgatar “só mais um”. Para você é apenas mais um, para nós isso significa que é mais uma boquinha que precisa ser alimentada, mais um animal que precisa de assistência médica e mais um que precisa de espaço saudável para viver, não é só mais um! Não somos acumuladores e nosso trabalho vai além de retirar animais das ruas, antes de fazer qualquer coisa que arrisque a vida de outro ser precisamos do mínimo de sanidade para continuar um trabalho sério e bem feito.



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