A realidade do abandono no Brasil

Atualizado: 9 de Mai de 2020

Ilustração: Anita Jeram

Historicamente, o cachorro foi considerado por muito tempo como o melhor amigo do homem, na verdade até hoje essa cultura do companheiro de 4 patas fiel, mantenedor de uma lealdade sem igual, ainda permanece, mas será que o homem de fato é o melhor amigo dos animais?


Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, estima-se que existam mais de 30 milhões de animais abandonados nas ruas, sendo uma média de 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. Nas grandes cidades, considera-se que para cada 5 habitantes há 1 cachorro. Destes, 10% estão abandonados. Em localidades menores, a realidade não é diferente, em certos casos a contagem chega a 1/4 da população humana.


Se levarmos em consideração o apego, carinho e principalmente o amor, esse número deveria ser infinitamente menor e até 0, não? Aí é que mora o problema: todos são amantes dos animais, “protetores”, ‘deveriam ter se tornado veterinários de tanta vocação’, cuidam dos seus bichos como filhos, até que... Até que o filhote chore, cresça e não seja mais um bebê fofo, até que ele adoeça e você não tenha como arcar com os custos, até que ele fuja, até que sua fêmea dê cria e/ou você aplique anticoncepcional e ela desenvolva tumores e posteriormente câncer. Todos são amantes dos animais até que...


Se você não é capaz de entender que um animal também tem vida e tem direito de existir livremente, você não entendeu nada. Para quem passou fome, sede, frio, dor e sofreu com a rejeição nas ruas, qualquer afago é um presente dos mais preciosos, os animais não pedem muito e aquilo que para nós significa pouco, para eles vale tudo.


Estamos entrando na época que para muitos é a melhor do ano, o natal. Momento de festas em família, celebração e solidariedade, mas não para os animais. O natal é a época do ano em que o número de animais abandonados cresce absurdamente. Período em que as famílias viajam e não tem com quem deixar o seu ‘bichinho tão amado’ e a solução mais fácil é abandoná-lo. Caixas ensopadas aparecem aos montes em nossas portas, recheadas de filhotes molhados e resfriados. O Papai Noel sempre encontra nossas meias primeiro...


O abandono, infelizmente, ainda vai ser uma realidade dolorosa por bastante tempo e isso acontece porque no Brasil não temos uma legislação que de fato funcione quando falamos sobre animais, principalmente sobre maus-tratos. Há tempos esse assunto deixou de ser pauta de ‘pessoas preocupadas com bichos’ e virou caso de saúde pública. Um animal na rua é capaz de transmitir doenças, causar acidentes e procriar de forma desenfreada, agora imagine mais de 30 milhões deles.


Além dos riscos para a saúde desses seres e o desequilíbrio do meio ambiente, a superpopulação de cães e gatos abandonados gera um rombo nos cofres públicos. Acidentes e doenças transmissíveis significam pessoas doentes, pessoas doentes e machucadas procuram hospitais e, consequentemente, surge um inchaço no número de pessoas esperando por atendimento médico. E assim, o que antes era ‘só um filhotinho’ em uma caixa molhada, vira um problema social gigantesco.


Você abandonaria um bebê sozinho em uma caixa de papelão, no período mais chuvoso do ano, esperando a morte chegar? Você deixaria ele sofrendo ao relento, com fome e sujeito à crueldade de terceiros? Não, né? Mas é isso que as pessoas fazem todos os dias, no natal, ano novo, páscoa, férias, em todas as épocas do ano, só que os bebês abandonados não despertam tanta comoção nas pessoas.