Calla viajante: Diário de bordo (Último dia)


Malas prontas. Ontem a tia disse para eu aproveitar meus últimos momentos de mordomia que logo cedo ela viria me buscar. Nunca vou esquecer do que vivi aqui e nem deveria, desde que eu entrei nessa clínica o destino se encarregou de reescrever minha história. Foram dias cansativos, mas decisivos na minha curta jornada por aqui.


"Oi, filha! Pronta para ir embora?". Com certeza, tia! Já estava só esperando a senhora chegar. Me despedi de todos que cuidaram tão bem de mim, especialmente do tio Carlos que me deu pernas novas. Ele é um homem de poucas palavras, mas é um verdadeiro gênio da ortopedia. "Tchau, Calla! Qualquer dia desses eu apareço em Macapá".


No caminho para o aeroporto me mantive tranquila e minha diversão foi assistir a tia Suelen apanhando para conectar o bluetooth no som do carro. "Aperta aí, Gilberto que eu não sei mexer nisso não". Enquanto escutávamos toda a discografia das mulheres do sertanejo, fui gravando na memória os lugares onde passamos. Até qualquer dia, Belém!


Tio Gilberto, tia Suelen, tia Laura e eu

No aeroporto, me despedi brevemente da tia Suelen. Obrigada por todo o carinho que vocês tiveram comigo e com a tia Laura, vejo a senhora em Macapá! "Vê se te comporta, moleca!". Que história é essa, tia? Mais comportada que eu impossível!!


Xiiiiii... parece que a tranquilidade durou pouco. Tia Laura planejou esse momento nos mínimos detalhes, pediu um documento completo do veterinário explicando minhas novas condições, para que não houvesse problema na hora de passar pelo raio-x... não deu certo. "Moça, eu vou ter que revistar você, a gata e a bolsa dela, para passar você tem que apresentar um documento da Polícia Federal autorizando isso". Tia Laura ficou tiririca da vida e começou a se alterar. "MOÇA, LEIA O DOCUMENTO, POR FAVOR!!!! EU NÃO TENHO COMO TIRAR ELA DA CAIXA, ELA PODE SE ESTRESSAR E CAIR, QUEM VAI SE RESPONSABILIZAR SE ELA SE MACHUCAR???". A mulher ficou com raiva e não deu a mínima, não quis nem olhar o documento que até foto das minhas perninhas tinha. "Eu posso abrir a caixa, tirar ela não!!!!". Depois de muita confusão, finalmente nos deixaram passar, eu já tinha até preparado meus parafusos para dar um chute na mulher, mas a tia Laura resolveu. "Tá tudo bem agora, daqui a pouco a gente chega, neném. Vamos tomar as gotinhas para acalmar?". Olha, tia, acho que a senhora vai precisar tomar umas também...



Esperamos, esperamos, esperamos... por conta da pandemia as companhias aéreas pedem que os passageiros cheguem 3h antes no aeroporto, deu até tempo de eu tirar um cochilo. "Licença, moça! Você é prioridade?". Ai, meu gatinho do céu, de novo essa confusão... "Sim, somos sim!". "Ah, tudo bem, estou aqui atrás de você, viu?". Ufa, essa passou raspando!


"Quase lá, Calla!". Ficamos bem na frente dessa vez, mas ao lado de um senhor rabugento, esse até ganhava de mim! "Vou pedir que o senhor tenha um pouquinho de paciência porque eu preciso acomodar ela devagar, ela fez uma cirurgia". O velho rabugento fez uma cara... mas tia Laura nem ligou, até demorou mais só de birra.


"Atenção, senhores passageiros preparar para o pouso". Eita, já? Chegou rápido hoje, né? Ou será que eu já estou me acostumando nessa vida de viajante? "Laura, tô aqui na área do desembarque esperando vocês". Era a tia Allana! A saudade tava tão grande que ela fez questão de vir nos buscar, eu costumo causar esse efeito nos humanos mesmo...


Minha história chegou a muitos lugares, tocou muitas pessoas e emocionou quem se sensibilizou com a minha trajetória. Sabe, tios... eu não tinha nome, endereço ou mesmo alimento e carinho no fim do dia. Não tive família, um quintal ou qualquer coisa que me fizesse pensar que minha vida seria tranquila até o fim dos meus dias. Mas de repente tudo mudou, desde o dia em que eu fui encontrada eu lutei por mim, pelos meus filhotes, mas principalmente lutei para viver e não ser mais um animal na contagem de mortos. Eu merecia viver! Meus filhos também, mas infelizmente não tiveram a mesma sorte que eu. Hoje eu sou a Calla Maria, tenho uma família temporária que cuida de mim como se fosse eterna. E de certo modo é sim, porque independente de qualquer coisa, eu sempre serei uma gatinha tucujú!

Obrigada por acompanharem minhas aventuras, até a próxima! Câmbio, desligo.


Com amor, Calla viajante 💛

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