Calla viajante: Diário de bordo na serra (Dia 1)

Oi, gente! Vocês devem estar se perguntando: "Ué, o que a Calla está fazendo aqui de novo?". Então, tios... vim contar o último capítulo da minha história: agora vou morar em outra cidade, vou virar mineirinha! Eu sei, eu sei, é muita coisa para a cabecinha de vocês, mas calma que eu vou explicar direitinho.


Vocês lembram que há alguns meses eu fiz uma cirurgia muito importante para colocar minhas próteses, né? Pois é, quando voltei a dona Cláudia, minha madrinha do coração disse que queria me adotar, olha só! As tias ficaram muito felizes com essa notícia e eu também. Ela disse que mandaria as passagens para a minha secretária, tia Laura, ir me deixar lá em Berizonte, (desculpa, é que eu já tô pegando o sotaque), afinal ela tinha que escrever meu diário, né. E aqui estou eu em mais uma aventura.


Passei todos esses dias dormindo na minha bolsa de viagem porque não me aguentei de ansiedade. Mas confesso que hoje bateu um pouco de nervosismo e saudades antecipadas dos meus companheiros e da minha família aqui de Macapá. Me escondi embaixo da mesa da cozinha e fiquei quietinha esperando me encontrarem. "Ahhh, te achei! Vamos, a gente tem que ir para o aeroporto, menina!". Tá, mulher, eu sei, deixa só eu dar um cheirinho na tia Allana antes. "Amo você, tia. Obrigada por cuidar de mim, vou sentir falta de ser rabugenta com a senhora, quando a sua cria nascer manda foto para mim dela, tá bom?"



Eu, minha tia gravidinha Allana e o bebê Alu

No aeroporto, passando no raio-X, um moço de cabelo escuro começou a perguntar de mim. "É UMA GATINHA!!!! VOCÊ SABE QUE EU TAMBÉM TENHO UMA? CHAMA LILICA". Tia Laura deu um sorrisinho por baixo da máscara e puxou conversa. "Sabe, ela tá lá em Belém, castrou essa semana, é o amor da minha vida! Olha, essa é ela na janela", disse o homem grande mostrando a gata no celular. Esses humanos adoram se exibir com a gente...


Na fila de prioridade uma senhora nos parou. "Oi, é um gato ou cachorro?". "É uma gatinha, Calla o nome dela". "Quando a gente ama leva para todos os lugares, né?". "Próximo!", e finalmente chegou nossa vez.


"Pronto, Calla, dá uma respiradinha aqui". Ai, mulher, finalmente! Não aguentava mais ficar presa nessa bolsa. Fomos as primeiras a chegar, ainda bem, porque apesar de ser prioridade muita gente implica com a tia na hora de embarcar. "Boa viagem, senhora!". Na fila para o embarque uma vovó franzina de cabelos platinados começou a puxar assunto. "É bom que gato é quietinho, né? Cachorro que chora mais".


Já no avião, velho conhecido meu, a tia tratou logo de me acomodar e eu fiquei direitinho esperando a decolagem, mas uma chuva começou a se formar e caiu bem forte, o que atrasou o nosso voo. Mais lá na frente eu explico sobre isso...


O toró começou a cair bem na hora que a gente ia decolar... furada

Vez ou outra dona Laura batia na minha bolsa para conferir se eu estava bem. "Ei, eu tô dormindo aqui, por gentileza a bonita poderia fazer o favor de não incomodar? Obrigada!". No horizonte era possível ver o sol se pondo, e foi uma das coisas mais bonitas que eu pude presenciar. Aos poucos foi anoitecendo e depois de algumas horas já chegaríamos em nossa primeira conexão.




Muitas luzes e coisas reluzentes, Brasília é um lugar bonito. Opa, já chegamos? Isso, chegamos sim. Então, gente, lembra que eu falei sobre o atraso do nosso voo? Pois é, essa demora influenciou no voo seguinte que nós iríamos pegar. Chegamos em cima do laço e tia Laura saiu do avião correndo, e eu é que me lasquei porque minha bolsa balançou mais que barco atravessando maresia. "Licença, opa, moça desculpa! Licença, Licençaaaaaa". Tia Laura virou o flash e correu muito para que a gente não perdesse o embarque. "Miaaaaau" "Miaaaaaaaaaaaaaaau". "Desculpa, filha, mas a gente precisa correeeeeeer". Vai mais devagar, mana, vai arranhar minhas próteses!


Já nem lembrava como era ver tanta luz

Pegamos informação com uma atendente da companhia aérea e ela explicou como chegar no portão de embarque. Tia Laura correu mais um pouco e entramos na fila de prioridade, que já tinha algumas pessoas. Fiz amizade com um garotinho enquanto respirava um pouco fora da minha bolsinha. "Você vai para onde?". "Eu vou para Recife". "Ah, ela vai para Belo Horizonte". Eu gostei dele, mesmo ele só entendendo quando a humana respondia por mim.


"Calla, isso tá esquisito, espera aí". Ihhhh, quando a tia fala assim eu já sei que vem bomba... "Moça, esse voo vai para BH mesmo?". "Não, senhora. O voo com destino a Belo Horizonte é no outro portão". "CALLA, A GENTE TEM QUE CORRER". Ai, lá vem tudo de novo...


Depois dessa maratona digna de atleta, tia Laura conseguiu nos fazer chegar a tempo. UFA, deu tudo certo! Na fila para entrar no avião fizemos amizade com um casal amistoso que estava atrás de nós. A humana contou toda a minha história quando eles questionaram. "Nossa, que maravilha! Essa pessoa deve amar muito ela para mandar buscar de longe, né?". Aproveitamos também para falar sobre o apagão do Amapá. "Nossa, nem consigo imaginar o desespero".


Agora na fila certa, rsrsrs

Em nosso último voo, já cansadas e famintas, tia Laura conseguiu aproveitar mais porque baixou as músicas para ouvir lá no aeroporto, mas toda vez ela fica para morrer do coração dentro do avião. Calma, tia, já falei para a senhora deixar de ser medrosa. "Atenção, tripulação, preparar para o pouso". Uh, enfim em casa! CHEGUEEEEEEEEI, BERIZONTEEE!! Cláudia e Lúcia, minhas novas mães já esperavam por nós no desembarque, mas antes fomos buscar a mala da tia e a cuba com vários presentinhos gostosos para minhas mãezinhas.


Tia Laura como sempre, manteiga derretida, chorou

Chegando na minha mais nova moradia, fiquei com um pouquinho de medo e me escondi no armário, mas comi um pouco, bebi água, fiz xixi e testei a minha caminha com estampa de nuvem, ganhei um enxoval completo, com direito à manta e casaquinho de frio, igual aos meus irmãos. Só felicidade!




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